Vozes esquecidas pelo tempo

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A história da ciência que conhecemos nos prende a uma perspectiva de uma única história – um termo concebido e problematizado pela escritora Chimamanda Ngozi Adichie em seu TED Talk “O perigo de uma única história“. Segundo esse conceito, a sociedade é levada a acreditar que a totalidade das descobertas científicas foram feitas por homens brancos de classe média, demarcando seu protagonismo. Todavia, essa perspectiva não espelha corretamente a realidade desse meio, que exclui tantas outras existências que batalham socialmente para serem legitimadas intelectualmente. Esse é o caso, principalmente, das mulheres negras na ciência, que tiveram suas vozes apagadas e a autoria de suas teorias usurpadas. É sobre esse panorama que o filme a ser discutido no cineclube Pedagogias da Imagem, “Estrelas além do tempo”, vai retratar.

Tendo isso em vista, é importante entendermos toda a estrutura que, em primeiro lugar, dificulta a entrada dessas pessoas no meio científico, assim como sua permanência no mesmo. Em uma perspectiva histórica, a fala das mulheres sempre foi mais relacionada ao imaginário “do lar” do que a uma lógica de pensamento matemático e de outras áreas do “conhecimento”. Acreditava-se que, biologicamente, elas não teriam a capacidade de raciocínio para adentrar esse universo intelectual, tradicionalmente de exclusividade masculina. Junto a isso, existe um forte imaginário racista na sociedade que relega os corpos negros a uma posição de inferioridade, principalmente no que concerne à lógica científica ocidental, excluindo-os do campo. Esse prisma começa a ser modificado nos Estados Unidos nos anos 60 com o fortalecimento do movimento dos Direitos Civis, que alavancou as pautas negra e feminista, em um esforço para legitimar suas vozes. Apesar de conquistarem alguns direitos e espaços, seus avanços no meio científico continuaram a ser barrados por empecilhos perpetuados pela sociedade. Como Mary Jackson, uma das cientistas retratadas no filme, afirma: “Sempre que temos uma chance de avançar, eles mudam a linha de chegada.” Um exemplo marcante, que retrata essa perspectiva na história estadunidense, foi o dilema presidencial que ocorreu durante o governo Kennedy, em 1963, retratado no documentário “Crise“, cujo título original é “Crisis: behind a presidential commitment” (1963), de Robert Drew. Dois estudantes negros, Vivian Malone e James Hood, tiveram sua entrada na Universidade do Alabama questionada pelo Governador do Estado, George Wallace, que literalmente tentou, com sua presença física, impedir o ingresso na instituição.

Mesmo quando conseguem ultrapassar, com seu talento e esforço, muitas dessas barreiras impostas socialmente, suas contribuições científicas são “esquecidas” do registro histórico. Um grande exemplo é Katherine Johnson, física e matemática, que foi responsável por calcular a trajetória de várias missões da NASA, além de ter sido essencial para o lançamento do primeiro norte-americano no espaço; ela é protagonista do filme “Estrelas Além do Tempo”, que demonstra todo esse processo. Além dela, não podemos deixar de citar Mileva Marić-Einstein, esposa do famoso físico e uma das primeiras mulheres a ingressarem na Universidade Politécnica de Zurique como estudante de Física e Matemática. Sua genialidade foi, inclusive, imprescindível para a elaboração da Teoria da Relatividade, em conjunto com Albert Einstein. No entanto, mesmo sendo cruciais para o avanço da ciência no mundo moderno, seus nomes e, consequentemente, o reconhecimento por suas contribuições foi completamente apagado e esquecido, relegando o crédito de sua intelectualidade a um homem, seja seu “colega” de trabalho, seja seu marido.

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Atualmente, livros e filmes têm buscado trazer à tona essas vozes femininas esquecidas pelo tempo, visando contar a verdadeira história por trás de suas descobertas científicas. Desde livros infantis que contam um pouco da vida e realizações de grandes nomes de mulheres que mudaram o mundo, até livros como “Senhora Einstein” e “Estrelas além do tempo”, que foi adaptado para o cinema e concorreu ao Oscar de melhor filme. Dessa forma, é possível perceber uma tentativa de reformulação da história oficial, iluminando seus erros e exclusões sociais. Apesar disso, podemos perceber ainda certo caráter hollywoodiano, onde imperam vozes masculinas brancas, no que diz respeito à forma que essas histórias serão recontadas. Tal tendência fica evidente com o protagonismo “heroico” de certos personagens brancos que são inseridos nessas narrativas como pessoas bondosas que teriam “concedido” esses espaços. Como se eles estivessem, com seus “favores”, salvando-as de uma realidade de exclusão que eles mesmos foram responsáveis por criar. Isso é perfeitamente traduzido pela inserção de um personagem historicamente inexistente no filme “Estrelas além do tempo”, Al Harrison, seu chefe que a teria “ajudado” a se inserir nesse espaço. Tal prisma não diminui a importância do filme, o qual representa um avanço na pluralidade de histórias acerca do campo científico.

“Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. […] Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso.”, como afirma Chimamanda em seu TED Talk.

Em meio à campanha de ‘21 dias de ativismo contra o racismo’, o longa Estrelas além do tempo (2016), de Theodore Melfi, será exibido na sessão de abertura da temporada 2019 do Pedagogias da Imagem, cineclube da Faculdade de Educação da UFRJ. A sessão acontece no dia 26 de março, às 17 horas, no Campus da Praia Vermelha, no Auditório Manoel Maurício. Após a sessão, Janete Ribeiro, ativista negra, mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense e Professora da Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch, realizará a palestra Uma outra história a ser contada. Todos estão convidados para as discussões sobre mulheres negras na ciência no cineclube!

Redação:
Julia Stallone
Camila Carneiro
– extensionistas do projeto Pedagogias da Imagem

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Circuito libidinal e novas equivalências da Casa Grande

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Na terça-feira, dia 27/12, encerramos a temporada 2018 do Pedagogias da Imagem, cineclube da Faculdade de Educação da UFRJ, com a exibição do filme Corra! (2017), do diretor Jordan Peele. Após a sessão, Bernardo Oliveira, doutor em Filosofia pela PUC-Rio e professor da Faculdade de Educação da UFRJ, realizou a palestra Economia libidinal e incêndio na Casa Grande.

Bernardo Oliveira convidou o público a pensar o longa sob o ponto de partida da libido, visto que toda a questão de Corra! decorreria de uma suposta abundância libidinal percebida no corpo do personagem principal. Mas o que seria a libido? Oliveira a apresentou como uma potência, uma energia propulsora dos instintos de vida. A partir dessa ideia, o diálogo se desenvolveu sob a observação do modo como o longa retrata a constante apropriação e expropriação da libido dos corpos negros.

Para entender melhor, Oliveira fez uma distinção entre a ideia de poder a e ideia de potência. A potência seria aquilo que um corpo pode, tudo aquilo que um corpo pode quando investe seus instintos numa produção vital. Por outro lado, o poder compreende uma estruturação social que pode inclusive se beneficiar da violência. Ele trouxe para a discussão a obra Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Podemos, então, dizer que o poder é visto em mãos da Casa Grande, porém a potência a ser explorada (pela Casa Grande) vem de Chris, o protagonista.

O professor também mencionou elementos das obras de Sigmund Freud e Jean François Lyotard, a fim de buscar colaborações para a conversa acerca do filme e suas questões. Freud pensa a economia libidinal como base das relações entre consciente e inconsciente. A partir de uma perspectiva médica, científica, Freud busca compreender os mecanismos dessa economia interna através da qual um indivíduo investe sua força vital em atividades, saberes e conhecimentos que estruturam a vida. No entanto, ele também aborda o que devemos perder em termos de libido, de investimento vital, para nos adequarmos às exigências de processos hegemônicos de socialização e individuação.

Décadas mais tarde, o filósofo francês Lyotard escreve o livro Economia libidinal, no qual toma a temática como um elemento capaz de oferecer uma interpretação mais completa do processo de acumulação e divisão de classes, característico do capitalismo. Haveria a substituição da noção de que o capitalismo se fundamenta na produção de mercadorias pela ideia de que o capitalismo se fundamenta muito mais na circulação libidinal, na qual a produção é condicionada pela circulação de vontades, demandas e instintos.

Em decorrência, Lyotard diz que o capital captura a força e a converge em trabalho medido pelo relógio. A força do corpo libidinal do operário, do escravo, tal qual um animal de tração, é expropriada como uma máquina – lembrando que a máquina é sempre uma propriedade de alguém. Dessa forma, mais do que explorar a força de trabalho em vista de obtenção de maiores margens de lucro, o capitalismo impõe uma administração, uma economia da contenção e da regulação das forças substanciais e superabundantes, para que se transformem em força trocável, maleável, adaptável, regulando a circulação de energia libidinal ao mínimo das perdas e ao máximo dos lucros.

Embora a fachada da “Casa Grande” exibida em Corra! seja essencialmente liberal, há em seus porões um aparato técnico-científico escondido, capaz de fazer a extração da força libidinal segundo o interesse do consumidor branco. Revelam-se, aqui, as tensões entre o capitalismo e a ciência. Na economia libidinal, a moeda não está reduzida ao dinheiro, mas às trocas e equivalências que ocorrem no “Circuito libidinal”. Esse processo se dá pela ligação de duas ferramentas: o sistema capitalista (que poda a libido a fim de torná-la operacional) e a ciência (aparato capaz de realizar a contenção e conversão do corpo, como nas práticas da eugenia). Desse modo, o longa propõe, de acordo com Bernardo, uma nova perspectiva em que a Casa Grande não é mais retratada como um elemento em torno do qual circula todo o fator produtivo do capitalismo: ela agora é retratada como uma espécie de filtro que vai reter somente aquilo que seus consumidores desejam.

Além disso, o filme de Peele apresenta personagens que encarnam de modo estratégico a perspectiva de uma conciliação racial, que fora apontada por Gilberto Freyre em sua análise do contexto brasileiro. Temos personagens que se esforçam constantemente para não parecerem racistas, que não desejam a segregação, mas são regidos justamente pela ideia de posse, agindo como proprietários da libido do corpo negro. Para marcar o contraste entre épocas, Bernardo fez uma comparação com o filme Django Livre (2012), de Quentin Tarantino, que se passa no século XIX nos EUA, sinalizando que Corra!, ao contrário daquele, não é um filme do passado, já que ele atualiza os elementos do racismo. Curiosamente, ambos os finais dos filmes trazem a representação de uma Casa Grande em chamas. Contrapondo Gilberto Freyre, Bernardo apontou que esta seria a imagem de que não há conciliação no horizonte.

Desse maneira, com o auditório lotado e um debate movimentado por um público bastante interessado, encerramos a temporada 2018 do cineclube Pedagogias da Imagem. Agradecemos pela presença de todos e todas ao longo do ano. Esperamos vocês para mais sessões e palestras no ano que vem! Continuem ligados no blog e nas nossas redes sociais para mais informações, matérias e conteúdos ligados aos temas do projeto.

 

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Boas festas!

 

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Redação:

Letícia Caroline

Luana Maia

– extensionistas do projeto Pedagogias da Imagem

“Corra!”, o gênero terror e as questões sociais

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O gênero cinematográfico do terror é geralmente associado à ideia de filmes regados a banhos de sangue e efeitos visuais de má qualidade. Dessa forma, a crítica acaba por rechaçar esse gênero, considerando-os filmes “sem ideias”, cujo conteúdo não traria à tona questões sociais. Todavia, nos últimos anos, uma série de produções captou a estima dos especialistas em cinema, como por exemplo Um lugar silencioso (2018); A bruxa  (2015); Hereditário (2018), Grave (2016) e o próximo filme a ser exibido no cineclube Pedagogias da Imagem, Corra! (2017). Tais longas não são considerados apenas filmes de terror, visto que a concepção preconceituosa construída acerca desse gênero colabora com o desejo de distanciamento daqueles elementos que o caracteriza como um gênero menor. Nesse contexto, surgem denominações como “elevated horror” (terror sofisticado), “drama extremo”, “thriller-chiller” (suspense de calafrios, em tradução livre), entre outros. Assim, percebe-se uma resistência em considerar filmes de terror como formas válidas de arte, dignas de fazer o público pensar e esteticamente legitimadas. “Mas a realidade é que os filmes acima podem ser reunidos sob uma única bandeira. Eles são perturbadores e desafiam o público a pensar. De um jeito ou de outro, são todos de terror”, afirma Simon Rumley, roteirista britânico, diretor e autor associado ao gênero de terror.

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Ben, personagem de “A noite dos mortos-vivos”, de George Romero (1968).

Todavia, esse tipo de abordagem estética valorizada em películas do gênero não é algo recente. “O Iluminado” (1980), “O exorcista” (1963), “O bebê de Rosemary” (1968) conquistaram o amor do público e o respeito da crítica, ao serem considerados formas de terror inteligentes, se configurando, assim, como clássicos do gênero e do cinema como um todo. Um ótimo exemplo dessa perspectiva social permeando o enredo desse gênero menosprezado é a obra Noite dos mortos vivos (1968) de George Romero. (atenção aos que se preocupam com spoilers! Caso não queiram saber detalhes deste filme, pulem para o parágrafo seguinte). A trama retrata a luta pela sobrevivência de um grupo de cinco refugiados em uma casa, enquanto uma horda sedenta de zumbis tenta atacá-los. O aspecto revolucionário se dá no fato de ter um protagonista negro, Ben, como “herói” da história, aquele que salva a outra protagonista branca, Barbara. A situação da fuga perpassa a luta racial dos anos 1960 ao demonstrar a incapacidade dentre os outros refugiados, brancos, e Ben de trabalharem juntos em prol de sua sobrevivência. Ao fim da narrativa, apesar de Ben e Barbara serem os únicos sobreviventes da ameaça zumbi, o protagonista acaba sendo assassinado por uma equipe de policiais ao ser confundido com uma ameaça. Entretanto, esse ato dantesco alude aos episódios históricos ligados ao racismo da força policial dos E.U.A. no período, muitas vezes encarando jovens negros como uma “classe perigosa”. Desse modo, demonstra-se a capacidade e a relevância do horror cinematográfico em abordar criticamente características da sociedade, gerando, assim, uma reflexão por parte do espectador, exponenciada pelo enquadramento cru e sanguinolento que espelha a realidade em suas existências mais expostas ao crime e ao ódio.

Tal temática é desenvolvida, também, pelo diretor e roteirista Jordan Peele em seu filme Corra! (2017), retratando a história de Chris, um jovem negro que namora Rose, uma menina branca de família tradicional. Quando o casal decide passar o final de semana na casa dos pais de Rose, o que era para ser uma viagem tranquila e ordinária se transforma em um pesadelo, permeando sobre a trama uma constante sensação de estranhamento. A importância de sua temática é evidenciada pelo Oscar de Melhor Roteiro Original, conquistado por Peele em 2018, sendo o primeiro homem negro a ganhar tal estatueta. Sendo assim, esse prestígio confere visibilidade não somente à problemática do racismo na sociedade – e à representatividade negra no cinema -, como também ao gênero do terror como algo além de um filme de entretenimento popular. Dessa maneira, Corra! também abre espaço para que novos filmes do gênero sejam mais bem recebidos pela crítica, sendo considerado como realmente obras de terror recheados de ideias e críticas sociais, passíveis de serem aclamadas sem a necessidade de uma nova terminologia que os eleve acima das “ordinárias” películas de horror.

Em meio às comemorações do mês da Consciência Negra e visando analisar as questões raciais que permeiam sua cinematografia, o longa Corra! (2017), de Jordan Peele, será exibido amanhã na sessão de encerramento da temporada 2018 do Pedagogias da Imagem, cineclube da Faculdade de Educação da UFRJ. A sessão acontece no dia 27 de novembro, às 17 horas, no Campus da Praia Vermelha, no Auditório Manoel Maurício. Após a sessão, Bernardo Oliveira, pesquisador, crítico de música e cinema, produtor e professor da Faculdade de Educação da UFRJ, realizará a palestra Economia libidinal e incêndio na Casa Grande. Todos estão convidados para as discussões sobre racismo e terror no cineclube!

 

Redação:

Camila Carneiro
Jeniffer Cavalcanti – extensionistas do projeto Pedagogias da Imagem

Sessão de novembro apresenta ‘Corra!’

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Na próxima terça-feira, dia 27 de novembro, o cineclube Pedagogias da Imagem fará a exibição do longa Corra! (Get out! – Estados Unidos, 2017), do diretor Jordan Peele, às 17h, no Auditório Manuel Maurício/CFCH. Em seguida, haverá uma conversa sobre o filme com o professor Bernardo Oliveira.

O filme retrata a história de Chris, um jovem negro que acompanha sua namorada caucasiana Rose em um final de semana na casa de seus pais, uma família tradicional moradora do interior do país. Apesar da premissa simples, a narrativa toma rumos dramáticos e violentos em seu curso, exteriorizados principalmente pelo constante estranhamento que rodeia o personagem principal em sua estadia.

A trama segue em uma espécie de adaptação da frase “Eu não sou racista, eu até tenho amigos negros.” Buscando transmitir o espírito que é transpassado pelo enunciado, a narrativa une a abordagem do racismo nos EUA com o gênero cinematográfico terror com maestria. A incessante sátira social e racial consegue se manifestar ao mesmo tempo de forma contundente e agressiva.  O filme foi muito aclamado pela crítica e muito elogiado pela comunidade negra ao redor do mundo. A consciência crítica construída pelo gesto provocador do filme reafirma sua grandiosidade, representando uma maneira contundente de abordar o racismo e questões sociais no audiovisual.

O thriller é dirigido pelo renomado comediante norte-americano Jordan Peele, conhecido por fazer parte do programa MADtv, assim como por criar o show Key and Peele, em que ele também atuava. Seu primeiro trabalho enquanto diretor, Corra!, lhe garantiu a indicação a quatro prêmios Oscar e a estatueta de melhor roteiro original, tornando-se assim o primeiro homem negro a vencer tal categoria. O simbolismo de tal conquista é inquestionável.

Após a exibição do filme, teremos o prazer de receber o doutor em filosofia pela PUC-RIO, Bernardo Oliveira, para uma conversa após sua palestra Economia libidinal e incêndio na Casa Grande. Pesquisador, crítico de música e cinema e produtor, Bernardo trabalha como professor da Faculdade de Educação da UFRJ. Além disso, é colaborador do GEM — Grupo de Educação Multimídia (FL/UFRJ) e do LISE — Laboratório do Imaginário Social e Educação (FE/UFRJ).

Venham e divulguem! Acesse aqui o link para o evento no Facebook. A sessão está aberta também para receber professores com seus estudantes. Para reservar vagas de turmas, entre em contato conosco pelo email: pedagogiasdaimagem@gmail.com

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Redação:

Julia Stallone – extensionista do projeto Pedagogias da Imagem

Contrapedagogia e a cinematografia godardiana

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Na terça-feira, dia 2 de outubro, na sessão que deu início ao mês de comemoração dos 50 anos da Faculdade de Educação, foi exibido a produção Filme Socialismo, do grande cineasta franco-suíço, Jean-Luc Godard. Após a sessão, a conversa foi com Jorge Vasconcellos, doutor em Filosofia pela UFRJ e professor no programa de pós-graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (PPGCA/UFF), com a palestra contrapedagogia da imagem e política da arte.

Jorge afirma que “Godard está em lugar ímpar”. Em suas produções, a construção de sentido deve ser costurada pelo próprio espectador, de forma a fazê-lo pensar. Uma das características específicas do cineasta é que em suas obras não há metáfora, os elementos são representados de forma literal. Além disso, o uso de ironia é considerado como uma “arma” típica de suas produções. Desta forma, a cinematografia godardiana seria de difícil adjetivação, pois ela não serve para ser boa ou ruim, mas sim para cumprir seu objetivo de fazer pensar. Logo, a escolha do título do filme não é uma síntese da obra, mas algo que estimula o pensamento.

A partir desta perspectiva, a conversa se seguiu para a construção imagética do filme, feita com base em uma profusão de imagens que já são, por si só, uma espécie de confronto com o espectador. A pluralização de formatos e utilização de imagens distorcidas, estratégias que nos inquietam, são algumas das portas para se pensar o filme. Em Godard, deve-se pensar essa violência de forma positiva, isto é, nos tirando de uma posição de conforto.

Para além da imagem, Filme Socialismo também serve de exemplo para uma percepção da abordagem, dada por Godard, ao som. Este, que muitas vezes parece ser incompatível com a cena apresentada, é, na verdade, uma ferramenta para a construção de uma não linearidade narrativa. O que, para Jorge, pode produzir uma contrapedagogia da imagem.

E o que seria essa contrapedagogia que discutimos? Jorge Vasconcellos explica que ela consiste, especialmente em Godard, em uma outra forma de abordar a imagem, revertendo seus pressupostos fundamentais. Assim, uma imagem não se prenderia a um significado específico e o conjunto das imagens em um filme não precisaria contar uma historia planificada. A contrapedagogia é, então, uma tentativa de ver, ouvir e pensar o filme sob outros lugares.

Portanto, a conversa proporcionou uma boa discussão acerca da construção imagética em Godard e as questões de pedagogia e contrapedagogia da imagem, enriquecendo assim as celebrações dos 50 anos da Faculdade de Educação da UFRJ.

Já no mês de novembro, o Cineclube Pedagogias da Imagem discutirá o racismo através da abordagem cinematográfica, com o filme Corra!, do diretor americano Jordan Peele, que será exibido no dia 27/11, às 17 horas, no Campus da Praia Vermelha, no Auditório Manoel Maurício. Após a exibição, será apresentada a palestra Economia libidinal e incêndio na Casa Grande, com o convidado Bernardo Oliveira, doutor em Filosofia pela PUC-Rio, pesquisador, crítico de música e cinema e produtor, professor da Faculdade de Educação da UFRJ e colaborador do GEM — Grupo de Educação Multimídia (FL/UFRJ) e do LISE — Laboratório do Imaginário Social e Educação (FE/UFRJ). Todos estão convidados para o mês dedicado a questões raciais do cineclube!

Redação:

Jeniffer Cavalcanti e Luana Maia – extensionistas do projeto Pedagogias da Imagem

Vidas ordinárias, existências extraordinárias

Na terça-feira, dia 25 de setembro, foi exibido na matinê do Cineclube Pedagogias da Imagem o filme Meu corpo é político. Após a sessão, a diretora do filme, Alice Riff, em videoconferência, e a doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ, Barbara Pires, conversaram com o público explorando as temáticas apresentadas na obra. A diretora é formada em Cinema e Ciências Sociais pela FAAP/USP e já dirigiu oito curtas documentais, que participaram de festivais nacionais e internacionais, dentre os quais podemos citar “Orquestra Invisível Let’s Dance”, “100% Boliviano, Mano”, e “Diálogos”; Pires é pesquisadora do Núcleo de Estudos em Corpos, Gêneros e Sexualidades (NuSEX) e da Liga Acadêmica Brasileira de Estudos em Intersexualidade (LABEI).

Nesse contexto, Alice Riff descreve como a base principal de seu filme a construção de narrativas de corpos trans, excluídos e periféricos, pautada no respeito, no afeto e também em certo distanciamento. Representando, assim, “um cinema em que a câmera potencializa a história dessas vidas” sem querer tomar, pretensiosamente, seu lugar de fala. Tal perspectiva, aliada a um retrato cotidiano de suas realidades, sem tender ao trágico das existências LGBTs, proporciona um olhar de aceitação do diferente, de presenciar o humano nas mesmas. O filme faz um recorte dessa comunidade excluída da educação, do trabalho, do direito de ir e vir em segurança, a partir do retrato de vidas ordinárias vividas por pessoas extraordinárias a esses ambientes.

Outra perspectiva apontada durante a conversa foram as diferentes formas de se expressar a feminilidade. Tal realidade é demonstrada no filme a partir das diferentes vivências das personagens em suas disciplinas corporais. A partir dos diferentes meios de vida cotidiana e da maneira que expressam suas personalidades, cada uma delas vai encontrar o feminino em diferentes recortes, partindo sempre de um quesito de auto-aceitação ao se exporem no ambiente social. Barbara Pires explorou essa temática do filme ao apontar duas formas de expressão pessoal na sociedade: o habitar as normas sociais do feminino, visando uma aceitação e uma noção de pertencimento, e o visibilizar o estranho, no qual a expressão do feminino visa causar um desconforto para desestabilizar a hegemonia.

Desse modo, a conversa acerca de Meu corpo é político proporcionou uma reflexão acerca de diversas temáticas expostas no filme, debatendo sobre corpos revolucionários e existências extraordinárias. Foi um ótimo fechamento para o mês da diversidade do Cineclube!

Redação:

Julia Stallone e Camila Carneiro – extensionistas do projeto Pedagogias da Imagem

A pedagogia de Godard: o pensamento como resistência

“Pensar com as próprias mãos é (…) um ato eminentemente artesanal que garante a propriedade, a autoria do que se produz. Em um cinema assim produzido, tende a gerar um pensamento ‘perigoso para o pensador e transformador do real’.” Esse é Jean-Luc Godard, cineasta iconoclasta e transformador do audiovisual, segundo a professora e autora Anita Leandro.

O diretor foi um dos grandes representantes do movimento nouvelle vague, a “nova onda” francesa de estética cinematográfica. Composta por teóricos que começaram seus trabalhos na crítica do cinema, a escola se insere em um contexto de questionamentos típico dos anos 60 e 70. As produções que englobam tal vanguarda buscam, por princípio e excelência, se contrapor às obras cinematográficas até então construídas.

Explorando mais o desenvolvimento do diretor franco-suíço, é possível perceber a modificação em seu caráter de produção com a transição da história mundial. Godard inicia seus trabalhos através de releituras do cinema clássico americano, subvertendo as fórmulas e explorando outras maneiras de expressão da linguagem. Na efervescência do momento francês, com foco principal ao movimento estudantil de 1968 e as consequências mundiais de seus atos, o cineasta passa a modificar seus comportamentos e produções, concomitantemente, se voltando para uma arte enquanto instrumento de resistência e questionamento. Nenhum outro diretor, nem mesmo seus conterrâneos, tiveram tamanha ligação com as manifestações revolucionárias.

O caráter amplamente político e social de Godard, presente em obras como “A chinesa” (1967) e “Número dois” (1975), constrói uma faceta pedagógica e imagética de sua produção cinematográfica. A pedagogia da imagem, definida pela professora Anita Leandro, representa uma forma de, através da experimentação pictórica, pensar. Isto é, uma pedagogia que constrói o aprendizado, não com a representação de conceitos pela imagem, mas que instiga o espectador-aluno a pensar pelas próprias imagens em movimento. Como ela mesma escreve em seu texto ‘Da imagem pedagógica à pedagogia da imagem’, “desde o final dos anos 60, Godard vem produzindo filmes que funcionam como aulas, filmes que são verdadeiros cursos de política, de roteiro, de educação sexual e de história. A pedagogia godardiana consiste desde então em substituir o cinema pela escola, a fruição passiva do telespectador pelo trabalho ativo do aluno.” O que se espera de uma prática do audiovisual que siga as proposições de uma pedagogia da imagem é exatamente uma contraposição à estética comercial do cinema, como aos filmes hollywoodianos, criando um novo saber que se baseia na produção de ideias e pensamentos, na assimilação do conhecimento e no tempo de reflexão proposto pela própria obra.

Abordando o contexto brasileiro de mesma época, o ‘Cinema Novo’, movimento que questionou a desigualdade social e a injustiça no Brasil, teve como grande representante Glauber Rocha, que sofreu significativa influência da nouvelle vague e de Godard. O diretor também propõe a construção de uma contracultura revolucionária que seja ao mesmo tempo “didática e épica” (sobre a atualidade da obra de Glauber, vejam esta palestra que aconteceu após a sessão de “Terra em transe”, em nosso cineclube). O caráter didático representa a abordagem científica da produção, visando mais à alfabetização e conscientização dos espectadores; enquanto que o caráter épico, simultaneamente, representa a abordagem poética que foca na estética da própria produção. É possível perceber assim a construção de uma pedagogia da imagem nestas obras.

A produção cinematográfica godardiana busca apresentar, até os dias de hoje, uma postura de questionamentos contra a sociedade do consumo e suas injustiças político- sociais. Dessa forma, a sua pedagogia assume uma posição de resistência, na incitação de um “pensar por si mesmo”. A pedagogia da imagem, termo que dá nome ao nosso cineclube, pode ser entendida como uma maneira de fazer pensar, expor uma conversa, com e através das imagens, engajando-se com o público, objetivando a formulação de novos pensamentos e experiências do real.

Em comemoração aos 50 anos da Faculdade de Educação da UFRJ e buscando analisar melhor o termo que nomeia o cineclube, o longa Filme socialismo (2010), de Jean-Luc Godard, será exibido na próxima sessão do Pedagogias da Imagem, cineclube da Faculdade de Educação da UFRJ, no dia 02/10/2018, às 17 horas, no Campus da Praia Vermelha, no Auditório Manoel Maurício. Após a sessão, Jorge Vasconcellos, doutor em Filosofia pela UFRJ, professor no programa de pós-graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (PPGCA/UFF), realizará a palestra contrapedagogia da imagem e política da arte. Todos estão convidados para a abertura do mês de discussões sobre educação no cineclube!


Redação:
Julia Stallone
Jeniffer Cavalcanti
– extensionistas do projeto Pedagogias da Imagem